Borderline, narcisismo, histrionismo ou transtorno de trauma do desenvolvimento?
Sintomas, diferenças e tratamento:
Os transtornos de personalidade borderline, narcisista e histriônicos podem ter semelhanças, sendo necessário um diagnóstico diferencial para o profissional de saúde saber como atuar no tratamento. Mas pode ser difícil, pois muitas pessoas tem características dos 3 transtornos.
Você sente muito as suas emoções, à flor da pele, vive intensamente amor, raiva, vergonha etc. sente que as relações necessitam de algum grau de sedução, se entrega demais no amor ou até em amizades, fazendo com que isso também lhe cause um medo de muita aproximação, de se entregar, pois é terrível a sensação de abandono de um familiar ou seu parceiro(a) amoroso(a), e, para se proteger ou aliviar essas sensações tem comportamentos impulsivos, até mesmo se colocando em perigo ou se machucando?
Para o DSM pode ser que você tenha o transtorno de personalidade Borderline ou Histriônico. Essa página visa lhe ajudar a entender um pouco desses transtornos e os tratamentos.
Caso conheça alguém que você acredite que possa estar enquadrado no transtorno e precise de ajuda, acredito que essas informações serão úteis.
Sumário
- O que são os transtornos em primeiro lugar.
- Os sintomas mais comuns do TPB.
- Os sintomas mais comuns do TPH.
- Possíveis causas segundo a teoria psicodinâmica e estatísticas.
- TPN possíveis origens.
- Quadro comparativo do TPB, TPH, TPN.
- Intervenções psicoterapêuticas para TPB, TPH e TPN.
- Transtorno de trauma no desenvolvimento.
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O que é o transtorno de personalidade borderline?
Segundo o DSM-5, o TPB precisa seguir os seguintes critérios:
- Esforços frenéticos para evitar abandonos reais ou imaginários.
- Padrão instável e intenso de relacionamentos interpessoais, alternando extremos de idealização e desvalorização.
- Distúrbio de identidade – autoimagem e percepção de si mesmo persistentemente instáveis.
- Impulsividade em pelo menos duas áreas da vida potencialmente autodestrutivas: gastos exagerados, sexualidade promíscua, abusos de substâncias, anorexia/bulimia.
- Comportamentos suicidas ou automutilações recorrentes.
- Instabilidade afetiva decorrente de acentuada reatividade do humor: intensos episódios de irritabilidade ou ansiedade, em geral durando horas, raramente mais que alguns dias.
- Sentimentos crônicos de vazio.
- Raiva intensa e inapropriada ou dificuldades em controlar a raiva: frequentes manifestações de irritabilidade, raiva constante, brigas físicas recorrentes.
- Ideação paranoide ou graves sintomas dissociativos transitórios, associados a estresses.
Já o transtorno de personalidade histriônico para o DSM-5 é:
- Desconforto quando eles não são o centro das atenções
- Interação com os outros que é inadequadamente sedutora ou provocativa sexualmente
- Mudança rápida e expressão superficial das emoções
- Uso consistente da aparência física para chamar a atenção para eles mesmos
- Discurso que é extremamente impressionista e vago
- Autodramatização, teatralidade e expressão exagerada das emoções
- Sugestionabilidade (facilmente influenciados por outras pessoas ou situações)
- Interpretação dos relacionamentos como mais íntimos do que são
As causas do TPB e do TPH são geralmente associados a primeira infância, os primeiros meses de vida ao até mesmo na gravidez podem gerar uma influência, veremos no final como um trauma precoce pode se confundir com esses transtornos.
Na antiga Roma, o termo “histrião” era atribuído a atores ou atrizes que interpretavam situações do cotidiano da vida das pessoas que não podiam ou não deviam ser mostradas às claras. Tais situações eram dramatizadas por meio de farsas bufonas, cômicas ou trágicas, que tinham como objetivo principal comunicar e causar impacto nos espectadores.
Na teoria psicodinâmica
O Transtorno de Personalidade Histriônica (TPH) é entendido como resultado de padrões de desenvolvimento psíquico que envolvem conflitos emocionais não resolvidos, mecanismos de defesa específicos e dinâmicas familiares precoces. A seguir, listo as principais possíveis origens do TPH segundo essa abordagem:
1. Relações parentais e desenvolvimento afetivo precoce
- Ambivalência afetiva: pais que alternam entre supervalorização e rejeição da criança podem gerar uma necessidade exacerbada de aprovação e atenção.
- Privação afetiva: carência emocional ou negligência afetiva pode levar a comportamentos chamativos como tentativa de obter o afeto não recebido.
- Identificação com figuras parentais sedutoras: quando os cuidadores são excessivamente sedutores ou valorizam atributos físicos e comportamentais superficiais, a criança pode internalizar esse modelo como forma de obter atenção.
2. Fixação e regressão em estágios psicossexuais
Muitos teóricos psicodinâmicos, a partir de Freud e a psicanálise tradicional, consideram que pessoas com TPH podem ter fixações ou regressões em fases específicas do desenvolvimento psicossexual, especialmente a fase fálica: marcada por exibição e busca por admiração da criança (em torno dos 5 anos), sendo central o Complexo de Édipo. Se este não é resolvido adequadamente, pode gerar padrões histriônicos, com excesso de teatralidade e necessidade de sedução.
3. Mecanismos de defesa predominantes
- Repressão: sentimentos dolorosos, como raiva ou insegurança, são reprimidos, e o indivíduo passa a expressar emoções exageradas ou superficiais.
- Dissociação: separação entre afetos genuínos e comportamentos manifestos, criando um estilo relacional teatral e inconsistente.
- Idealização e desvalorização: flutuações entre ver os outros como maravilhosos ou insignificantes, criando relações superficiais e intensas.
4. Busca por aprovação e medo de rejeição
A teoria psicodinâmica enfatiza que a pessoa com TPH sofre com uma intensa angústia de abandono e necessidade de ser o centro das atenções, como forma de compensar inseguranças profundas e sentimentos de inadequação. O comportamento sedutor e dramático seria uma tentativa inconsciente de evitar o abandono e garantir afeto. Relações objetais precoces mal estruturadas podem levar à dificuldade de estabelecer vínculos profundos e estáveis.
5. Influência do narcisismo primário
Algumas linhas psicodinâmicas relacionam o TPH com falhas na constituição do narcisismo saudável. Como compensação, desenvolve-se uma necessidade constante de ser admirado, buscando incessantemente o olhar do outro para manter a autoestima.
Resumo psicodinâmico
O transtorno de personalidade histriônico, na visão psicodinâmica, seria um modo de defesa e adaptação às experiências relacionais precoces marcadas por:
- Atenção inconsistente.
- Relações familiares ambivalentes.
- Modelos parentais sedutores ou superficiais.
- Conflitos não resolvidos do desenvolvimento psicosexual.
Assim, os comportamentos típicos — sedução, dramatização, busca de atenção — são vistos como tentativas inconscientes de lidar com inseguranças internas profundas. Em tais pacientes a realidade precisa ser evitada e/ou maquiada a qualquer preço. Percebe-se semelhanças com o transtorno Borderline e o Narcisista pela necessidade de atenção, mas é diferente.
Concepção geral na teoria psicodinâmica do Transtorno de Personalidade Narcisista
Na psicodinâmica, o Transtorno de Personalidade Narcisista é bem complexo e possui muitos teóricos que escreveram a respeito. Basicamente, é compreendido como uma tentativa defensiva de manter a autoestima e regular sentimentos de inferioridade, vergonha ou vazio interno. Ele surge de experiências precoces de falhas ambientais e de relações objetais disfuncionais, especialmente envolvendo as figuras parentais.
O narcisismo patológico é visto como uma estrutura defensiva que protege o indivíduo contra angústias profundas, decorrentes de falhas no desenvolvimento emocional.
2. Teorias e principais origens
A) Sigmund Freud: O narcisismo primário e secundário
- Freud introduziu a ideia de que todos os seres humanos passam por uma fase de narcisismo primário, na qual o amor e o interesse estão voltados principalmente para o próprio self.
- Se essa etapa não for superada adequadamente, o sujeito pode permanecer fixado em um estado narcisista, falhando em investir emocionalmente nos outros (narcisismo secundário patológico).
- Origem do TPN: Fixação ou regressão a esse narcisismo primário, impossibilitando o desenvolvimento de relações de objeto maduras.
B) Heinz Kohut: Teoria das relações self-objeto
Ponto central: O Transtorno Narcisista de Personalidade surge de falhas no espelhamento empático por parte das figuras parentais.
- Origem: O desenvolvimento saudável do Self depende da presença de "self-objects" (outros significativos) que respondam com empatia e validação às necessidades da criança.
- Quando há falhas graves nesse espelhamento (pais frios, críticos ou desinteressados), a criança desenvolve um Self grandioso patológico para proteger-se de sentimentos de insignificância ou fragmentação.
- Mecanismo: A grandiosidade, arrogância e necessidade extrema de admiração são tentativas defensivas de manter a coesão do Self, evitando contato com o vazio e a vergonha subjacentes.
C) Otto Kernberg: Narcisismo patológico e organização borderline
Ponto central: O TPN, para Kernberg, representa uma forma de patologia do desenvolvimento do ego associada a uma organização borderline ou narcisista da personalidade.
- Origem: Relações parentais marcadas por: Idealização excessiva ou rejeição; Falta de experiências afetivas autênticas e estáveis; Uso abusivo do filho para atender às necessidades narcísicas dos pais, não reconhecendo a subjetividade da criança.
- Mecanismos de defesa predominantes: Identificações patológicas; Cisão (separação entre aspectos "bons" e "maus"); Desvalorização e idealização.
D) Melanie Klein: Defesas primitivas e inveja
- Origem: Narcisismo patológico como expressão de defesas esquizo-paranoides, com predomínio de mecanismos como Cisão e Idealização/Onipotência.
- Fatores de risco: Experiências precoces de frustração, levando a uma intensa inveja dos objetos percebidos como "bons", resultando na necessidade de se sentir superior e autossuficiente.
E) Donald Winnicott: Falso Self e ausência de ambiente suficientemente bom
- Origem: O TPN pode se desenvolver como resultado de um Falso Self rigidamente estruturado.
- Quando o ambiente familiar não valida as necessidades emocionais autênticas da criança, esta constrói um self adaptativo, moldado para atender às expectativas externas.
- Consequência: O sujeito aparenta autoconfiança e superioridade, mas vive desconectado do Verdadeiro Self, o qual permanece oculto, frágil e não desenvolvido.
3. Síntese dos fatores psicodinâmicos
| Origem | Explicação |
|---|---|
| Falhas no espelhamento parental (Kohut) | Incapacidade dos pais de validar a criança, levando à criação de um self grandioso defensivo. |
| Relações objetais precoces disfuncionais (Kernberg) | Experiências marcadas por rejeição, uso instrumental ou idealização da criança, dificultando o desenvolvimento de uma identidade coesa. |
| Falso Self (Winnicott) | Adaptação precoce às expectativas parentais, sacrificando o self autêntico em prol de uma persona superficialmente confiante. |
| Defesas primitivas (Klein) | Uso excessivo de mecanismos como cisão, idealização e onipotência para evitar angústias persecutórias e depressivas. |
| Fixação no narcisismo primário (Freud) | Falha em superar etapas normais do desenvolvimento psicossexual, mantendo um investimento libidinal exagerado no self. |
Quadro Comparativo: TPH, TPN e TPB
| Aspecto | Transtorno Histriônico (TPH) | Transtorno Narcisista (TPN) | Transtorno Borderline (TPB) |
|---|---|---|---|
| Origem Psicodinâmica | Carência afetiva; fixação fase fálica; sedução contra medo de abandono. | Falhas no espelhamento empático; self grandioso defensivo. | Relações objetais instáveis; trauma; medo intenso de abandono. |
| Mecanismos de Defesa | Repressão, dissociação, idealização, dramatização. | Idealização, desvalorização, cisão, negação, onipotência. | Cisão, idealização, desvalorização, acting out, projeção. |
| Relação com o outro | Busca atenção e aprovação; sedução; relações superficiais. | Busca admiração; exploração alheia; baixa empatia. | Intensas e caóticas; oscila entre idealização e desvalorização. |
| Medo central | Ser ignorado ou não ser o centro das atenções. | Ser exposto como falho; vergonha e humilhação. | Ser abandonado ou rejeitado; medo de ficar só. |
| Comportamentos típicos | Dramatização, sedução, busca de aprovação. | Arrogância, exploração interpessoal, prepotência. | Impulsividade, automutilação, autodestruição. |
Intervenções psicodinâmicas
1. No Transtorno Histriônico (TPH)
Foco: Trabalhar dependência de aprovação; expressar emoções genuínas; fortalecer o self autêntico.
- Estabelecer um setting claro: Evitar deixar-se seduzir pela dramatização; manter postura firme.
- Interpretação da defesa: Ajudar o paciente a ver que a sedução é defesa contra medo da rejeição.
- Explorar sentimentos recalcados: Facilitar acesso a afetos como tristeza e medo.
2. No Transtorno Narcisista (TPN)
Foco: Contato com vulnerabilidade e vergonha; integração de autoimagem realista; favorecer empatia.
- Postura não confrontadora: Evitar ataques às defesas narcísicas para não haver abandono.
- Interpretar a grandiosidade: Compreender a imagem inflada como defesa contra a insuficiência.
- Trabalhar relações: Analisar padrões de exploração e falta de empatia.
3. No Transtorno Borderline (TPB)
Foco: Integração do self; reduzir impulsividade; desenvolver visão menos dicotômica.
- Ambiente seguro: Limites claros para conter acting out.
- Interpretar cisão: Notar alternância entre extremos de "maravilhoso" e "terrível".
- Regular emoções: Refletir sobre estados emocionais antes do comportamento impulsivo.
Os três pertencem ao Cluster B. No borderline o outro é necessário para existir. Na histriônica as emoções são teatrais e buscam o olhar do outro. No narcisista, o outro é útil ou descartado.
O Transtorno de Trauma do Desenvolvimento (TTD)
Não é um diagnóstico formal no DSM, mas descreve o impacto de traumas crônicos e relacionais (abuso, negligência) sobre o desenvolvimento do senso de eu, especialmente se ocorridos na primeira infância. Afeta a vida toda na regulação emocional, identidade e corpo.
- TTD e TPB: Relação direta. Traumas de abandono e cuidadores imprevisíveis. O TPB pode ser a expressão adulta do TTD.
- TTD e TPH: Trauma mais sutil. Amor condicional gera necessidade de atenção por desempenho ou beleza.
- TTD e TPN: Trauma encoberto. Pais indisponíveis ou críticos. Gera vergonha tóxica e um self falso inflado.
| Aspecto | TPB | TPH | TPN |
|---|---|---|---|
| Tipo de trauma | Abandono / Caos | Amor condicional | Vergonha / Desvalorização |
| Resposta psíquica | Desorganização afetiva | Dramatização | Grandiosidade |
| Defesa central | Clivagem | Repressão + atuação | Idealização |
Muitos pacientes são, na verdade, adultos traumatizados. O terapeuta funciona como regulador afetivo, espelho e objeto suficientemente bom.
Agende sua consulta agora comigo!
Eu sou um psicoterapeuta de abordagem psicodinâmica que pode ajudá-los a tratar esses sintomas, possuo experiência tanto no atendimento clínico quanto em internações psiquiátricas, além de fazer parte do ambulatório de transtornos de personalidade AMBORDER da UNIFESP.
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